
melhor nome de banda, ever.
Hoje é sexta-feira, dia de sair pra balada e… não, não é. Pra mim pelo menos não seria, já que o capital de giro da Família Moi tá meio baixo. Como isso jamais me segurou em casa, usei da boa vontade e do Google e fiquei sabendo que seria exibido o documentário “Velhas Virgens – Atrás de Cerveja e Mulher” no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, lá na Vila Nova Cachoeirinha e ainda dentro do festival In-Edit. Criei coragem e fui, sozinha como sempre.
E tinha tudo pra que essa minha ida desse errado. A começar, que quando resolvi mesmo sair de casa já eram mais de seis da tarde, segundo, que eu teria de pegar um ônibus que normalmente é muito lotado e terceiro, que pelo horário eu encararia um trânsito absurdo e provavelmente não chegaria a tempo. De qualquer modo, meu plano “b” seria ao menos me deslocar até o CCJ, conhecê-lo e ficar sabendo da programação para quem sabe, retornar outra hora.
Felizmente, quebrei a cara. O coletivo não estava lotado, sentei naqueles bancos únicos (meus favoritos) e fui ouvindo minha própria música durante uma viagem de aproximadamente cinquenta minutos onde o trânsito nem estava tão ruim. Cheguei ao Terminal e instalei a costumeira cara de perdida, já que do bairro só conheço o cemitério e tenho até alguns parentes enterrados lá, e como ainda tem gente legal no mundo não tive dificuldade em conseguir orientação.
Depois de uma caminhada cheia de subidas e descidas e sempre virando à esquerda, vejo finalmente o grande espaço onde o CCJ está instalado. Grande mesmo, parece um colégio público só que com as paredes mais claras. Olho no relógio, sete em ponto. Peço informações aqui e ali e chego no “cinema”… não era cinema, era isso que vocês verão agora:

Adivinhem de quem é aquela mochila verde?
Fiquei meio p. da vida uns minutos, porque o lugar era muito claro e do meu lado direito tinha um monte de gente conversando alto. Bastou começar a exibição do documentário e a luz esmaecer que deixei de prestar atenção nessas coisas e finalmente conheci um pouco mais de uma das bandas mais legais do mundo, que tiveram o azar de serem brasileiras e heroicamente independentes na medida do possível.
Misoginia de cu é rola
Uma acusação recorrente sobre o(a? as?) VV é que a banda é machista e não tem apreço pelos atributos intelectuais e espirituais femininos. Vejam por exemplo a letra (pescada aqui) desse clássico do cancioneiro nacional, Buceta:
Buceta
Velhas Virgens
Composição: Paulo de Carvalho
Elas falam demais.
Mas têm o que a gente quer.
E elas torram a nossa grana.
Mas têm o que a gente quer.
E elas sabem ser chatas quando querem
Mas têm o que a gente quer
A gente faz papel de besta
Mas elas têm o que a gente quer
E a gente cai na lama e come grama.
porque elas têm o que a gente quer.
Elas fazem com a gente o que elas querem
porque elas têm o que a gente quer.
E o que é que a gente quer?
A gente quer fuder.
E o que é que a gente quer?
A gente quer
BU-CE-TA . Buceta!
A gente briga na rua
porque elas têm o que a gente quer.
E a gente larga a bebida
porque elas têm o que a gente quer
Até mesmo a boemia a gente deixa
porque elas têm o que a gente quer
E pode até ser gordinha
mas tem o que a gente quer.
Banguela, fedida, fudida
mas tem o que a gente quer.
Apesar dos defeitos
todas elas têm o que a gente quer.
E o que é que a gente quer?
A gente quer fuder.
E o que é que a gente quer?
A gente quer
BU-CE-TA . Buceta!
Elas botam chifre na nossa testa.
mas nós temos o que elas querem.
E elas chutam nosso saco, fingem que não ligam
mas nós temos o que elas querem.
Por mais formais ou feministas que pareçam
nós temos oque elas querem… eeee
E o que é que elas querem?
Elas querem fuder.
E o que é que elas querem?
Elas querem
CA-CE-TE. Cacete!
E o que é que a gente quer?
A gente quer fuder.
E o que é que a gente quer?
A gente quer
BU-CE-TA . Buceta!
E como rebater a esse sólido conjunto probatório? O vocalista e letrista da banda nos ensina: “Isso não é machismo, é só uma visão das coisas”.

Eu ri, porque nem a mais putanhesca das letras do (da? das?) Velhas Virgens em algum momento foi ofensiva para mim, é música de festa, de churrasco, de bebedeira. Quer música sensível sobre a alma feminina, vai ouvir Chico Buarque e não me enche o saco.
Aliás a primeira vez que tomei conhecimento da banda foi justamente em um churrasco em um sítio perto de Sorocaba, cheio de gente chapada e muito doida. Um colega da faculdade colocou uma FITA deles pra tocar e entre um visgo de lucidez e outro pensei: “que porra é essa?”. Amor à primeira escutada.
A Verdade dos Fatos
Ao longo do documentário (dois anos de registro) foi mostrado além de vários shows da banda, um pouco da vida e do cotidiano de cada um dos seus integrantes. Paulão, o desbocado vocalista é fã do André Vianco, sente falta do pai já falecido, gosta de música romântica de outrora e foi enrolado por dez anos pela sua amada Dedé. Tuca é advogado, tem escritório, família, filhos, sabe cozinhar e parece um cidadão bastante respeitável. Cavalo estava construindo sua família na época do documentário, que registrou suas inseguranças em gerar prole e até o resultado da ousadia, uma criança muito linda que foi batizada com cerveja e em nome do Corinthians, por Paulão. Lips, o baterista é considerado o “bêbado número dois” da trupe e partilhou conosco uma cômica história que resultou em sua saída da banda, por terem deixado o pobre esquecido em um Posto Graal em Limeira (conheço bem), sem dinheiro e muito, muito magoado. Na eṕoca da gravação, fazia parte da banda uma mocinha muito linda chamada Lili, que segundo a própria era proibida de beber porque normalmente, já cantava muito mal. É verdade.
No final da exibição, estão todos cantando no quintal de alguém uma música exaltando as alegrias de ser solteiro e que casar, nem fodendo. Todos acompanhados de suas esposas e filhos. Esse é o Velhas Virgens.
O documentário é ÓTIMO, compro na primeira chance que tiver. Nesse eu não dumi hohohoooo…
Links que você deveria clicar:
1. Post do diretor do documentário sobre sua própria obra
2. Site oficial do Velhas Virgens
3. Blog do Paulão, minha alma gêmea, a personificação masculina do meu verdadeiro eu interior (é sério)
4. Até tu, Wikipedia?
O Bônus da Noite: Thundervoltz

Gratis! Meu preço favorito!
Quando os letreiros começaram a subir, um simpático rapaz de dreadlocks nos avisa que estaria prestes a começar uma apresentação no teatro do CCJ e que quem quisesse já poderia ir se dirigindo até lá. Perguntei do que se tratava e ele me disse, super empolgado: “É a banda Thundervoltz, do Thunderbird! Eles vão fazer uma retrospectiva do rock desde os anos 50″. Foi o suficiente para me convencer a ficar mais um pouco no CCJ e ver de perto uma das figuras que me marcaram na adolescência, já que sou da geração que assistiu ao “Garota de Ipanema” da Marina Lima no dia em que a MTV iniciou suas transmissões no Brasil.
Busquei meu ingresso (gratuito) e assim que cheguei onde seria o espetáculo, percebi que aquilo estava sendo de algum modo inusitado para mim, mas ainda não sabia exatamente o que havia de diferente. Um show de rock em local pequeno (claustrofobicamente pequeno), preto e cheio de assentos? Poucas pessoas, uns vinte ou trinta bastardos duros conversando animadamente e mais o staff do CCJ, além de mim é claro, aguardando a apresentação? Mistério…

Micropalco
Inicialmente, havia escolhido a primeira fila para me sentar porém o tamanhão dessa caixa de som que vocês estão vendo fez com que eu mudasse de idéia. Entre acomodar-se e tentar tirar fotos, não tardou para que Thunderbird (baixo, vocal), Johnny Monster (guitarra. vocal) e Jeff Molina (bateria, vocal) dessem finalmente o ar de sua graça e começassem um dos shows mais bacanas que já assisiti ao vivo desde a Virada Cultural.
Thunderbird é um comunicador, uma verdadeira presença. Chegou todo vestido em preto e com lindíssimos óculos na cor âmbar, saudou o público com um engraçado “e aí?” e situou a gente sobre o que iria acontecer: a tal retrospectiva. Tocaram uma ou duas músicas de cada década, a partir dos anos 50 e a cada intervalo nós éramos brevemente situados sobre o contexto do que ouviríamos. Uma apresentação didática, interessante e muito divertida.
O set list semi completo:
Summertime Blues
Adivinhão
Rolling Stones – I’m Free
Jorge Ben Jor – A Minha Menina
Stooges – No Fun
Joelho de Porco – Trombadinha
David Bowie – Modern Love
Ira – Núcleo Base
Pixies – Here Comes Your Man
Júpiter Maçã – Um Lugar do Caralho
Blur – Song 2 (woo-hoo!)
Uma música do Radiohead que agora não to lembrando o nome
Beck – The Golden Age
Los Hermanos – Ana Julia
Uma música que eu nem reconheço, nem sei qual é a banda (não entendi o nome) e por isso MA BAD vou ficar devendo (é da década de 00, me perdoem)
Strokes – Last Nite
Wander Wildner – Bebendo Vinho
(no bis) Ramones – I Wanna Be Sedated
O show começou com todos os presentes sentadinhos e comportados e no final, algumas cadeiras já haviam sido removidas para o povo dançar – assim que é bom e achei particularmente curioso quando a galerinha JOVEM se animou com Ana Julia (ah esses malditos jovens da Malhação) enquanto eu e o guitarrista da banda expressamos nosso pouco afeto por essa música. E lógico, teve muito “TOCA RAULLL” e com a graça dos deuses da mitologia nórdica, não tocaram.
Tirei um monte de fotos NENHUMA ficou boa. Tortas, desfocadas e saturadas. Portanto, fiquem com as duas menos piores:

Thunderbird, A CABEÇUDA, Jeff e Johnny em seu momento rockstar

Desculpa ter cortado você, Johnny

A prova do crime
Lá pela terceira música eu finalmente percebi o que afinal, estava sendo inusitado naquela noite: estava assistindo a um show de rock, sentada e bebendo água mineral. WTF, CADÊ MINHA CERVEJA? Não tinha cerveja e de qualquer modo seria bastante razoável que bebida alcoólica não fosse vendida no CCJ. Faltou também o empurra-empurra, a fila no banheiro para o povo que gosta de um brilho especial, a fumaça sufocante de cigarros diversos, o chato que grita na sua orelha para falar alguma coisa idiota enfim, foi tão… esquisito, era como se eu estivesse fazendo uma coisa muito errada.
E antes que eu me esqueça, VIU, THUNDER? Sou do centro e sei escrever o nome da banda!
(Augusta sux, esse show no CCJ foi tudibom.)
Links de interesse:
1. CCJ – Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso
2. Blog do Thunderbird
Voltei à toca na companhia do Meat Loaf e o morceguinho que gostava de escapar do inferno muito, muito feliz. Saí de casa sem grana (sem grana mesmo, se eu precisasse de cinquenta centavos para salvar a minha vida não os teria na carteira), sem carro, vi duas coisas muitíssimo legais e havia uma caixa de Bohemia me esperando no congelador, providência de um sempre amoroso benhê. O que mais eu podia querer nessa sexta-feira? Bem… tem mais uma coisa… mas isso um dama não comenta.
Vou ali e já venho.
Bjosbebammais.